Liberdade de expressão saindo pela 'Porta dos Fundos'?
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  • 27/12/2019

Liberdade de expressão saindo pela 'Porta dos Fundos'?

Em uma sociedade cada vez inerte para a existência de valores morais precisamos, cada vez mais, nos opormos aos excessos da libertinagem travestida de liberdade.

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Esse artigo trata de um evento lastimável e ultrajante ocorrido nos últimos dias. Refiro-me à publicação de um vídeo na plataforma Netflix em que a figura de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua Mãe são vilipendiadas.
Infelizmente, muitos artistas adotam uma postura marcada pelo mais abjeto niilismo.. 
Desde Platão, o ato de retratar as figuras do sagrado à imagem e semelhança das perversões e vícios da humanidade é reconhecidamente um problema para a humanidade, conforme destacado em a República: ali, o filósofo se queixa do fato de os deuses gregos serem caracterizados como tarados, mesquinhos, avaros, cruéis, invejosos, vingativos, etc. Confutando a Protágoras, o sofista, ele põe de manifesto o perigo em se adotar a máxima de que “o homem é a medida de todas as coisas”, e não de que Deus é sua verdadeira medida, por ser o Criador.
A única originalidade disso a que Platão chamou de insensatez (anoia – isto é, negação da inteligência, do nous) do ponto de vista axiológico, consiste na inversão radical do movimento para a Transcendência, constitutivo do espírito humano, fazendo-o degenerar em Transgressão, isto é, na supressão dos limites que separam o humano do infra-humano, tornando o ser humano cada vez mais reles, vil, inferior, palavra, esta última, que remete a inferno. Como diz  S. Tomás, é da razão da blasfêmia a detestação da bondade divina. “Aqueles que estão no Inferno mantém-se com uma vontade perversa, avessa à justiça de Deus, naquilo que amam aquilo por que são punidos, e odeiam as penas pelas quais se punem tais pecados, e se doem dos pecados que cometeram, não porque os odeiem, mas porque por eles são punidos.” 

Além disso, diz o Evangelho: "Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram". Essa passagem das Escrituras, tão repleta de significados, nos aponta para um fato: o Céu não é para aqueles que prezam acima de tudo o comodismo, as facilidades, os confortos de uma vida regrada.

No entanto, há muitos que se dizem cristãos e, quando vêem ofendido Nosso Senhor, como o tem sido por aí muitos que se intitulam comediantes, têm por reação única a de se lamentar, cruzando os braços sem fazer nada, limitando-se a mussitar uma palavra ou outra, só para depois dizer: ah, mas também, não podemos ser radicais; ou, ainda: pois é, mas eles também têm um monte de coisas interessantes.

Outros se resignam à inação diante magnitude do ofensor, justificando-se: não vai adiantar nada boicotar, eles têm milhões de assinantes. Como se o dom do livre-arbítrio, com o qual fomos agraciados com Deus, servisse apenas para sermos umas "marias vai com as outras".

Alguns, ainda, apesar de boicotarem, diante da perspectiva de tomar uma medida mais drástica, como um processo civil ou uma representação criminal, logo começam a hesitar, recordando uma suposta sacralidade da "liberdade de expressão", à qual atribui um caráter absoluto, intangível, ao mesmo tempo em que se esquece da intangibilidade e da sacralidade de Deus, relegando-o ao âmbito do relativo.

Isso tudo seria trágico, se não fosse apenas cômodo, ainda que talvez possa soar também cômico, suscitando, naqueles que tiveram seu bom senso resguardado, um comichão de riso. Afinal, não nos restou a ação penal contra aqueles que, nos termos do art. 208 do Código Penal, vilipendiam publicamente objeto de culto religioso?

Deixemos estar que se trata de um artigo que resguarda insuficientemente a dignidade de Deus, reduzindo tudo a uma mera questão de sentimento. Como se racional mesmo fosse o homem, do alto de sua ridícula empáfia, considerar-se autossuficiente, prestando culto somente à Razão, uma razão que é apenas um nome para disfarçar um secreto materialismo, o mesmo que não hesitou em guilhotinar cabeças no Terror, massacrar camponeses na Vendéia, na Ucrânia e na China, e que hoje age de maneira menos ostensiva, mas nem por isso menos perversa, eliminando no ventre de suas mães seres humanos recém concebidos, ou, ainda, brincando com embriões como se fossem massinha de modelar. O mesmo que ridicularizou a descoberta científica do Pe. Lemaître, que sugeria que o universo havia tido um começo com o tempo, e que não era eterno como aqueles que adotam o materialismo – que não é senão outro nome para o panteísmo – supunham. Em suma, à Razão que se tornou escrava da técnica, ao mesmo tempo que está alheia à vida, em seu esquecimento do Ser.

É apenas se agirmos todos os cristãos de maneira coesa, coerente e corajosa para denunciar tais abusos e crimes, saindo do marasmo que cerca as nossas vidas, é que poderemos promover a única verdadeira liberdade, a liberdade para o bem, a liberdade dos Filhos de Deus, contra os absurdos do niilismo que a cada dia torna nossa sociedade mais doente, mais cheia de vazio, privando-a do seu sentido.

Por
Mateus Wesp